DO FOTÓGRAFO

Formação na carreira fotográfica e o perigo da ancoragem

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Mês que vem fará 5 anos que comprei minha primeira câmera digital, uma compacta Sony H10, e comecei a dar os primeiros cliques. Seja pelo aniversário da data, seja pelo final de ano, eu começo a repensar todo o processo de aprendizado fotográfico até aqui. Começo a pensar em todos os acertos e principalmente nos erros(que não foram poucos).

Em 2009, abandonei a bolsa de 100% do Prouni no Mackenzie e um emprego em um multinacional de tecnologia para poder me dedicar à carreira de fotógrafo.

Entretanto, em janeiro de 2012 vendi todos os meus equipamentos e móveis, saí do meu apartamento, doei minhas roupas, comprei um mochilão e me mudei para a Europa para ter mais experiência de vida e profissional para que eu pudesse estar preparado para os grandes trabalhos.

Foram centenas de dias de dedicação full time e durante esse tempo você começa a se cobrar: Por quê não conquistei isso?, por quê não conquistei aquilo?, por quê não fotografo para a revista x?, por quê não ganho dinheiro como o fotógrafo y?, por quê não pego trabalhos como o fotógrafo z?

O que me ajudou(e tem ajudado) foi ter entendido que é necessário lidar com dois elementos: Formação e Ancoragem.

Formação

Imagine que você cansou de ser fotógrafo e quer se tornar advogado. Qual seria o processo para você se tornar esse profissional?

De forma geral, seriam necessários 7 anos de estudos para que você pudesse ser iniciante na carreira. Se fosse medicina o processo seria bem mais demorado.
O que aprendi e tenho aprendido é que não é justo nos cobrarmos tanto sucesso se estamos em um processo que é, em média, igual ao de qualquer profissional. Claro que há exceções e que não dá para compararmos laranjas com maçãs, mas  é importante ter em mente que não podemos acelerar o sucesso sem  a quantidade  necessária de estudo e prática.

E qual quantidade é essa? De acordo com K. Anders Ericsson, uma pessoa para chegar ao nível de expert é necessário que tenha praticado pelo menos 10 mil horas10 mil horas de treino são equivalentes a três anos e meio de estudo intensivo, oito horas por dia, sete dias por semana. 

Depois de entender esse processo, parei de me cobrar tanto e estou mais tranquilo no caminho das minhas 10 mil horas.

Ancoragem

Daniel Kahneman define efeito de ancoragem como sendo a situação em que as pessoas consideram um valor particular para uma quantidade desconhecida antes de estimar essa quantidade, de uma outra maneira podemos dizer também que é a dificuldade que temos de não nos deixarmos influenciar pela primeira impressão.

Basicamente é o seguinte: Um vendedor de móveis lhe mostra primeiramente os produtos mais caros, pois essa vai ser sua ancoragem. Quando você ver os móveis de menor valor vai achar eles baratos, pois a sua percepção inicial é de um produto com valor bem superior. Outro exemplo é de marcas de grife que vendem bolsas de couro a R$20.000,00, mas também possuem uma linha mais simples com valores entre R$1.500,00 a R$3.000,00. Quando a ancoragem é feita em cima de 20 mil, 3 mil reais não parece tão caro assim.

O que tudo isso tem a ver com fotografia?

O quadrinho abaixo vai explicar isso muito bem:

Dentro das redes sociais está sendo criada uma realidade que não existe. No Facebook, nos blogs e no twitter todo fotógrafo tem sucesso, trabalha todos os dias, ganha muito dinheiro e é famoso. Quando o fotógrafo iniciante se depara com isso acaba entrando em depressão, pois sua vida não corresponde aquilo. Na verdade a vida de quase ninguém corresponde aquilo. O problema é quando começamos acreditar que aquela é a âncora e que nossa vida deveria ser assim. O que mais me surpreende é que conheço pelo menos 70% dessa galera se sei que ninguém vive dessa forma ou você acha que eu passo todos os dias da semana bebendo vinho em um parque francês do século XIX.

Por outro lado, quando um grupo de pessoas, baseado na nossa “imagem de rede social”,  acredita que somos melhores do que realmente somos, corremos o risco de nos enganarmos por aquilo que nós mesmos criamos. Involuntariamente ou não.

Acredito que ser bom é quando seu cliente entende o seu trabalho como algo de valor e o recomenda para outros clientes. Se likes não são convertidos em vendas eles não servem de praticamente nada.

Não somos tão ruins quanto, às vezes, achamos que somos e também não somos tão bons quanto as pessoas acham que somos!